17 de jul. de 2018

Severina


Três senhoras subiam a rua com suas sombrinhas abertas tentando se proteger do sol, o suor escorria pelo rosto enrugado e molestado pelo tempo. Cada um carregava um bíblia entre o braço e a costela e suas saias balançavam a cada passo demorado e cansado que insistiam em dar. Andaram por cerca de 200 metros até virar à direita e subir um pequeno trecho até um portão azul de ferro que protegia um longo corredor. As três pararam cansadas e olharam uma para as outras confirmando o que ali estavam por fazer, até que uma se adiantou ao portão e gritou: Severina! Severinaaa! E batia palmas sequencialmente.
Não demorou muito e outra senhora surgiu preguiçosamente e acenou com a mão, ela também trajava saia, mas está era mais longa que as demais e uma camisa verde clara, seu rosto estava abatido e cansado, o calor contribuía para esta aparência.
— Boa tarde Severina! Que bom lhe encontrar em casa muiê!
— Oi Francisca — disse olhando as demais — Tá bem?
— Muiê, to bem cansada...
— Qué entrar um pouco? Bebe algo?
— Quero não fia, vim mesmo falar contigo Severina, tu não apareceste mais na igreja, brigou com Deus foi?
— Que nada Francisca, mas estou só em casa e tô repousando.
— Mas Severina, ta molinha é? Por causa do calô?
— Não muiê, é puquê tô bebendo agora, como que vou a igreja assim?
— Muiê, largue de bebe, isso é coisa do demônio querendo te possuir.
— Oxi, i eu já tô com o demônio faz é tempo muiê, tu acha que meu filho vindo todo sábado para brigar comigo aqui é o que? Coisa de Deus que num é...
— Mas Severina, tu nunca deixaste de ir a igreja mia fia, a melhor pregadora.
— É... mas agora não posso ir mais.
— Só por causa de bebida é?
— Não, tô pecando por demais...
— Creia em Deus Pai muiê — Disse Helena fazendo o sinal da cruz e olhando para Francisca concluiu — Precisamo fazer um descarrego e limpar essa casa.
— Severina, me diga muiê, tu tá aprontando o que?
— Eu tô com fogo, muito fogo...
— Oxi, que fogo é esse muiê? Tu é viúva, não pode ficar com esses fogo não vice?!
— E você ainda não sabe o pior Francisca, ai que tu vai concordar comigo...
— Me diga, me diga logo, pois vou avisar o pastor hoje mesmo.
— Eu tô com com fogo, subindo pelas pernas, me deixando louca...
— Senhor do céu! — exclamaram todas
— Eu tô dando para um homi casado, ele me atiça sabe...
— Virgem Santíssimo, isso é um pecado gravíssimo, tu sabe não sabe?
— Sei sim, mas a bebida me perdoa, não me julga e me deixa alegre. Deus sabe que eu sempre fui santa, tu sabe? Mas agora vi que Deus só quer ver eu feliz e tô feliz Francisca...
— Pecadora! Isso que tu tornaste, não tens vergonha não muiê? Vou lhe trazer o pastor aqui e, digo mais, vamos tirar esse demônio, satanás, coisa ruim do demo de ti.
— Pois pode vim todo mundo, quero ver se é o demônio mesmo que tá aqui. E eu agora vou é entrar...
— Deus te abençoe e te guie Severina, para Ele baixar esse fogo teu.
— Se vier com uma jirombona, ele resolve.
— Deus te perdoe, que blasfêmia. Pecadora! Tu tá pior do que eu pensava... creio em Deus Pai.
— Gente...  gargalhou sonoramente Severina — Lhe falta uma jiromba bem porreta visse.

E assim se foi as senhoras horrorizadas, porém pensando que realmente lhe faltavam algo além de suas minhoquinhas que tinham em casa. 

Forever and for Always - Bruno Twain - Copyright © 2007 - 2018 | Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.
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